Primeiro Amarrações Estéticas do ano reúne artistas dos Laboratórios de Música e de Dança

Foto: Tamires Sales

A partir da criação do videoclipe da música “Iara”, de Bruno Esteves, gravada pela banda Viramundo, os artistas Tieta Macau, Juliana Rizzo, Victória Andrade, Bruno Esteves e Marcello Santos mergulham em suas ancestralidades e trazem suas reflexões sobre as afinidades de suas pesquisas

“As vozes da Iara – narrativas e ancestralidades” é o tema do primeiro Amarrações Estéticas de 2021. O evento reúne artistas com diferentes trajetórias para partilhar experiências em torno de um tema específico. Esta edição acontece no dia 17, quarta-feira, às 17h, no YouTube do Porto Iracema das Artes, e promoverá o encontro dos projetos “Fortalezas: Trajeto de um Mundo Virá” (Lab Música) e “Lança de Cabocla (Lab Dança)” com Tieta Macau, Juliana Rizzo, Victória Andrade, Bruno Esteves e Marcello Santos.

Nesse encontro, a partir da criação do videoclipe da música “Iara” (confira abaixo), de Bruno Esteves, gravada pela banda Viramundo, os artistas mergulham em suas ancestralidades e trazem suas reflexões sobre as afinidades de suas pesquisas nos Laboratórios de Dança e Música. De acordo com Tieta, artista transdisciplinar, o território aparece como ponto de interseção do grupo. Ela explica: ”O que me forma enquanto artista, sujeito e pessoa são esses territórios que, de certo modo, são os territórios que os meninos, nesse processo de virem do Sudeste para o Nordeste, passam a investigar. A gente tem essa relação com cultura popular e terreiro há muito tempo”.

As ancestralidades preta e pindorâmica são as guias para o trabalho de Tieta e vão ao encontro da ideia de macumbaria, que a artista elegeu como ponto central para suas pesquisas, independentemente da linguagem (música, dança, texto). Esses conceitos conversam diretamente com o clipe da Viramundo. ”Quando a gente vai para o clipe, (a ideia) é pensar essa Iara em uma narrativa não linear. É algo que me incomoda muito, essa estrutura da história da arte: como ela faz a gente ler as narrativas não-brancas”, argumenta Macau. Ela se refere a uma leitura exotizada, estereotipada e até mesmo mística das produções que vêm da Europa.

”A gente começou a pensar a construção das Iaras a partir do que a gente é”, finaliza Tieta. Pensar a Iara a partir de uma relação intuitiva, de uma relação com seus corpos e trajetórias – para além da ideia de sereia – é o que guia o Amarrações Estéticas da próxima semana. Na live, os artistas debatem sobre esse assunto e outros mais.

Vic Andrade, integrante da Viramundo, explica que o videoclipe conversa com a proposta do Amarrações Estéticas. ”A própria música já provoca esse lugar de encontro, de narrativas da ancestralidade afropindorâmica e afrodiaspórica”, comenta.

Ela considera importante ressaltar, também, a escolha do cenário para o clipe: a praia de Sabiaguaba, em Fortaleza. O território ”tão potente e mágico”, nas palavras da artista, é constantemente ameaçado pela especulação imobiliária. ”Quando a gente traz esse território e essa criação de mulheres dentro dessa narrativa, a gente está falando sobre o lugar da natureza também”, diz Vic.

Sobre as Amarrações Estéticas

No vocabulário do mar, “amarração” é o ato de consolidar a atracação das navegações no cais dos portos e dar firmeza aos nós da rede de pescar. Assim, o Amarrações Estéticas coloca-se na perspectiva de consolidar os atos criativos, através de amarrações construídas a partir de diálogos entre os projetos dos Laboratórios de Criação.

Sobre o projeto “Fortalezas: Trajeto de um Mundo Virá” 

Bruno Esteves, formado em música pela UFC, e Victória Andrade, formada em dança pelo CTD (Curso Técnico em Dança) do Porto Iracema das Artes, uniram-se a Marcello Santos, pesquisador e etnomusicólogo, arte-educador na área de música percussiva, com especialidade em cultura tradicional e popular de expressão afro-brasileira, para criar narrativas sonoras e cênicas potentes. As conexões entre ancestralidade e contemporaneidade inspiram-se em maracatus, sambas, cirandas e bois, assim como percussões menos usuais como alfaia, caxixi, casaca e outros.

Sobre VIRAMUNDO

Foto: Alan Sousa

O trio Viramundo investiga poéticas culturais brasileiras de tradição, compondo em diálogo com matrizes rítmicas e suas temáticas. Formada em 2019, inicialmente como um duo entre o casal Vic e Bruno, Viramundo ficou em 3º lugar no Festival de Música da Juventude de Fortaleza em seu ano de estreia e, atualmente, está sob tutoria do artista Kiko Dinucci, da banda Metá Metá, no Laboratório de Música do Porto Iracema das Artes. Marcello é mestre de percussão e ogã de candomblé; Vic é cantora, bailarina e batuqueira. Já Bruno é compositor, cantor e violonista. A banda, que se intitula como uma estação criativa de brincantes de música, traz a percussão como personagem principal, cruzando toques nordestinos e sons de matriz africano.

Sobre Lança de Cabocla

Lança de Cabocla é um projeto de criação em dança que propõe um processo de trabalho em comum acordo com outras cosmologias e “seres interessantes que têm uma perspectiva sobre a existência.” (KRENAK, 2019). Trata-se de pesquisar um dançar com as plantas de proteção, aliado às danças de caboclo. Dançar uma defesa preparada para um ataque. Dançar o quê de “macumba” as pessoas possuem, às vezes sem saber, mesmo quando dispõem as “Comigo ninguém pode” ou as “Espadas de são Jorge” nas portas de suas casas. Quais são as suas memórias e saberes ancestrais? O que de dança elas sabem e vivem? Aqui escrevo um projeto que intenciona encontrar macumbarias dançantes maiores que o feitiço da pólvora e das políticas de morte (MBEMBE, 2018).

Tieta Macau

Artista transdisciplinar, filha da serpente, criadora de macumbarias cênicas e outras espirais. Tieta Macau é interessada em processos de criação, produção cênica afroreferenciada, poéticas populares e afrodiaspórica, historiografia da arte, escrita em dança entre outras encruzas. Uma das criadoras do Coletivo DiBando, atua em colaboração com vários artistas e grupos entre o Maranhão e o Ceará como Grupo Afrôs, Brecha Coletiva, LABORARTE, Viramundo entre outros. Recente foi aprovada no Laboratório de Criação do Porto Iracema das Artes com o projeto Lança de Cabocla. É licenciada em Teatro pela UFMA (MA), cursa o bacharelado em Dança e o mestrado em História Social na UFC (CE), atua na relação constante entre memória, ancestralidade, rastro, ilha e continente.

Abeju | Juliana Rizzo

Abeju. E/ou Juliana Rizzo. Artista do corpo que estuda produção e criação de sites. Criadora de trabalhos onde o corpo é atravessado por aspectos da visualidade, movimento, expressão urbana e tecnologia. Se interessa atualmente pelas questões de gênero e as referências ao saber de seus mais antigos, pensando produções a partir da criação coletiva e processos colaborativos. Integra a Brecha Coletiva, Coletivo DiBando e Núcleo de Estudos da Performance. É formada pelo Curso Técnico em Dança (CE) e graduanda em Teatro pela Universidade Federal do Ceará.

Sobre a Escola

O Porto Iracema das Artes é uma instituição da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, sob gestão do Instituto Dragão do Mar (IDM). Criada em 29 de agosto de 2013, há seis anos desenvolve processos formativos nas áreas de Música, Dança, Artes Visuais, Cinema e Teatro, com a oferta de Cursos Básicos e Técnicos, além de Laboratórios de Criação. Todas as ações oferecidas são gratuitas.

SERVIÇO

O quê: Primeiro Amarrações Estéticas do ano reúne artistas dos Laboratórios de Música e de Dança
Quando: Dia 17 de março, quarta-feira, às 17h
Onde: YouTube do Porto Iracema das Artes
GRATUITO

 

Equipe de Assessoria de Comunicação do Porto Iracema das Artes | Texto: Gabriela Feitosa (estagiária) | Supervisão e edição: Raphaelle Batista | Publicado em 12/03/2021.